Araruna-PB, Sábado, 21 de Outubro de 2017
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Saúde
12 de Outubro de 2017 ás 19:36h
Projeto quer leito exclusivo para mães de natimortos; psicólogas são contra
Renata Fabrício foi mãe de um bebê que viveu apenas por duas horas e relatou que passou por constrangimentos na maternidade

A morte de um parente é sempre uma situação crítica na vida de qualquer pessoa. O falecimento de um filho é ainda mais doloroso e desestabilizador, principalmente quando se trata de uma criança, especificamente de um bebê. Ainda há casos em que, por consequências médicas, sequer o bebê nasce com vida, para ter o primeiro contato com os familiares.

A situação tão crítica, vivida pela mãe e demais familiares da criança, é, sem dúvidas, algo que merece todos os cuidados psicológicos, humanitários e psiquiátricos, para assim, amenizar a dor e o sofrimento daqueles que perderam um ente querido de forma tão precoce, porém não é isso que acontece nas maternidades públicas da Paraíba.

Renata Fabrício, de Campina Grande, foi mãe de um bebê que viveu apenas por duas horas, passando por manobras clínicas que não conseguiram reverter o quadro de saúde da criança, levando-o a óbito. Ela relatou vários constrangimentos que passou na maternidade, destacando a importância de existir um leito especial para as mães de bebês natimortos, ou que morreram horas depois do nascimento.

“Não existe um leito especial para mães de natimortos. Além desse problema, os enfermeiros são mal preparados para atender esses casos. Por exemplo, no leito em que eu fiquei todas as mães estavam com seus bebês, cerca de 10 mulheres, uma com gêmeos inclusive, e toda vez que vinha medicação, ou, por exemplo, fisioterapeutas para ensinar a pega da mamada e outras coisas, me perguntavam onde estava o meu bebê, e eu simplesmente não respondia. Primeiro que eu nem tinha forças pra explicar o que tinha ocorrido e depois que eu achava que essa informação constava na minha ficha”, relatou Renata Fabrício.

Renata relatou o despreparo por parte da equipe de enfermagem da maternidade e também o constrangimento de estar junto de mulheres que tiveram seus filhos saudáveis, enquanto ela não podia desfrutar da convivência com seu filho.

“Foi horrível. No meu caso, um parto prematuro, no último dia da 25ª semana. Em menos de 1h30 do início das primeiras contrações, o bebê já tinha nascido. Então se soma ao fato de a gestante não estar preparada para aquele momento, que todo mundo sabe que não é o momento ideal de maturidade do bebê, à falta de humanização dos enfermeiros, a mulher ainda precisa ficar em um leito onde todas as mães estão com seus bebês no colo. Você vê todo mundo se familiarizando com a vida que você achava que ia ter, e simplesmente não pode sair dali”, lamentou Renata Fabrício.

Além de relatar várias situações constrangedoras na maternidade, Renata não conseguiu ficar na rede particular de maternidades, pois, segundo ela, não tinham o equipamento necessário para atender ao seu caso, que seu filho nasceria prematuro.

“Meu parto foi no Instituto de Saúde Elpídio de Almeida (Isea), a única maternidade pública da cidade, e aí mais uma falha da rede particular da cidade, que não tem um hospital referência para internar prematuros. Eu ainda passei na Clipsi antes, na esperança de ficar na particular, mas eles não aceitam, pois o Isea é a referência para esses casos”, relatou.

Projeto de Lei prevê leito separado

A deputada estadual Camila Toscano (PSDB), idealizadora do Projeto de Lei que prevê o direito de escolha para as mães de bebês natimortos a escolherem se querem ou não ficar em um leito separado, disse que não consultou um psicólogo antes de apresentar o PL, afirmando que a situação das mães que passam por essa situação é muito constrangedora.

“Olhei para a situação das mães, são muitos relatos de constrangimentos. Eu respeito o pensamento das psicólogas, mas eu vejo o lado da mãe, que está em um momento de muita fragilidade, que muitas vezes precisa de um espaço mais reservado, apenas com familiares. Eu ouso até divergir da fala dessas psicólogas, mas acredito que devemos garantir à mãe de um bebê natimorto, o direito de escolher se quer ou não compartilhar o leito da maternidade com outras mães com bebês saudáveis, devido à situação tão delicada que é a morte precoce de um bebê”, disse a Deputada Estadual Camila Toscano.

Isolar mãe de natimorto pode ser prejudicial

A psicóloga e mestre em desenvolvimento humano, Cláudia Franca Schmidhaüssler, afirmou que não concorda com o Projeto de Lei da deputada Camila Toscano e disse que separar a mãe de um bebê natimorto das demais mães não a beneficiaria e poderia até causar uma depressão mais aguda.

“A questão da dor e do luto precisam ser vivenciados. Se ela tivesse ficado em um leito ou enfermaria sozinha, ela ia se sentir ainda mais enlutada. Ficar em quarto isolado não beneficiaria em nada no quadro psicoemocional dela”, disse a psicóloga e mestre em desenvolvimento humano, Cláudia Franca Schmidhaüssler.

Cláudia Franca também disse que o acompanhamento psicológico ainda na maternidade é imprescindível para a situação dessas mulheres.

“Nós sabemos que esse momento é de extrema dor, mas é necessário que lá mesmo na maternidade ela tenha um acompanhamento psicológico e ao mesmo tempo um acompanhamento psiquiátrico, pois pode gerar uma depressão mais aguda, necessitando de medicação”, relatou.

Cláudia Franca acredita que a forma como o luto é apresentado para a mãe pode influir muito na recuperação emocional da mãe do bebê natimorto.

“Eu acredito que o luto sendo apresentado de uma forma mais saudável, fortalece ainda mais a pessoa, e quando a mãe é retirada do ambiente para se isolar, pode ocasionar outro tipo de problema e a fragilização psicoemocional pode ser ainda maior”, disse a especialista.

A psicóloga Juliana Brasileiro também se posicionou contrária ao Projeto de Lei, porém destacou a importância de um trabalho psicológico de terapias individuais ou em grupo para a mãe de um bebê natimorto.

“Eu não concordo com a separação, pois essas mães podem se sentir diferentes, isso pode gerar um sentimento de inferioridade. Como se pensassem ‘não sou digna de ficar perto das outras mães’, isso a nível inconsciente. Agora, por ser algo tão recente, a mãe vai precisar de um suporte da equipe multiprofissional. Porque vários sentimentos e pensamentos passarão em sua cabeça. Ela vai ver naquelas mães [de filhos saudáveis] o que ela queria pra ela. Por isso, o ambiente deve ser o mais acolhedor possível para que aquelas mães de bebês natimortos se sintam protegidas. E assim que possível, procurarem ajuda psicológica, com terapia individual ou em grupo”, disse a psicóloga Juliana Brasileiro.

Preparo psicológico

Uma médica que não quis se identificar passou pela mesma situação enfrentada pelas mães de bebês natimortos, porém, na rede particular de saúde, onde teve todo o aparato psicológico necessário para a sua recuperação.

“Perdi o bebê por uma infecção urinária, isso foi diagnosticado quando eu estava mais ou menos na 25ª semana de gestação, então eu passei por alguns sangramentos e tive que ir para maternidade, a bolsa rompeu e acabaram fazendo o parto, o bebê nasceu muito prematuro e com infecção, sobrevivendo por apenas 24h. Porém, tive todo um acompanhamento psicológico, com uma psicóloga que me visitou no quarto, trazendo todo o aparato necessário para a recuperação, pois todos nós ficamos muito debilitados”, relatou. 

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Por: POrtalcorreio
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