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Obra assinada por Abelardo da Hora em 1956 está deteriorada

Publicado em 10/05/2019 11:23

Reprodução

A arte e suas diferentes formas de expressões criativas ao longo da história sempre foram usadas pelos ativistas para passar informações sobre uma causa em particular ou mensagem. O artista pernambucano Abelardo da Hora, que morreu em 2014, foi um deles. A xilogravura ‘Meninos do Recife, por exemplo, denuncia a miséria por meio da representação de crianças sujas, apresentando afinidade com o realismo e o expressionismo.

Na década de 50, o desenhista abordou a temática social mais uma vez em uma obra estampada na parede da Residência Universitária Feminina, localizada no Centro da capital paraibana, onde permanece até hoje. Apesar das referências encontradas serem mínimas, por se tratar de uma gravura muito antiga, o professor de História da Arte da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Gabriel Bechara, acredita que, pelo período, Abelardo quis denunciar as mazelas sociais do Nordeste.

“Poucos anos depois dessa obra, Abelardo fundava o Movimento de Cultura Popular (MCP), ligado ao até então prefeito de Recife, Miguel Arraes. O movimento cultural era de esquerda, e havia como tônica as denúncias das mazelas sociais. Ele, comunista de carteirinha, enfatizava a temática”, explicou.

Sem referências sobre quem encomendou a gravura, Bechara desconfia que Abelardo da Hora trouxe à Paraíba o que os artistas locais tinham receio de fazer. “Os artistas paraibanos tinham medo de fazer um trabalho engajado na linha de denúncia, pois tinham medo de perseguição política. A obra dialoga com os desenhos e as gravuras da época, e vai culminar no famoso do álbum dos ‘meninos do Recife’, em 1962”, analisou.

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Obra está na Residência Universitária Feminina, no Centro de JP (Foto: Ísis Vilarim/ Portal Correio)

Com nome desconhecido, a obra na Residência Universitária Feminina se encontra deteriorada. AoPortal Correio, a UFPB, através da assessoria de comunicação, informou que a Superintendência de Infraestrutura da Universidade Federal da Paraíba (SINFRA/UFPB) não estabeleceu prazo para reparar as falhas, mas garantiu que vai resolver o problema para preservar o registro cultural do autor.

Memorial Abelardo da Hora na Paraíba

A Paraíba vai ganhar o ‘Memorial Abelardo da Hora’, que já é construído no Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa. A inauguração está prevista para o dia 31 de julho, ocasião dos 95 anos de nascimento do artista.

Avaliado em R$ 11 milhões, o acervo é composto por toneladas de obras esculpidas em concreto e bronze, além de pinturas e desenhos. Parte delas irá compor o Memorial na capital paraibana e outra parte irá para Portugal. Com isso, a Paraíba vai abrigar o maior acervo de obras expressionistas do Nordeste.

Entenda

O Termo de Doação das obras do artista ao Estado da Paraíba foi assinado em outubro de 2018, na casa onde Abelardo vivia na capital pernambucana. As obras do artista, falecido em setembro de 2014, são preservadas pelos familiares em um casarão em Recife. Casado com a paraibana Margarida Lucena, o artista sempre manteve relação com a Paraíba.

Em dezembro do ano passado, após receber críticas de políticos pernambucanos sobre a doação do acervo à Paraíba, a família do artista divulgou uma carta intitulada “Abelardo de todas as horas e de todo o Brasil”. Nela, a família explica que recebeu convites de outras partes do país e convites internacionais, como dos países de Portugal, Romênia e Emirados Árabes, mas optou pela Paraíba pois já tinha sido iniciada a construção do museu antes mesmo da doação ser concretizada e por estar perto, acessível também aos pernambucanos.

“A doação mantém viva a fraternidade entre os dois estados – irmãos culturais – pois, da mesma maneira que Pernambuco abriga, mantém, preserva e divulga a obra e a memória do paraibano Ariano Suassuna, a Paraíba abrigará, manterá, preservará e divulgará a obra e a memória do pernambucano Abelardo da Hora. Não há, portanto, nenhum prejuízo para a cultura de nenhum dos dois estados, nem para a cultura nordestina”, diz a carta.