Meio ambiente
AÇÃO DEPREDATÓRIA CAUSA PREJUÍZOS À BACIA DO RIO PARAÍBA

Publicado em 31/03/2019 10:40

Reprodução

Ocupação desordenada, desmatamento, lançamento de poluentes e resíduos sólidos são apontados como fatores responsáveis pela degradação do mangue – ecossistema presente na faixa costeira da Paraíba. Um dos trechos da interferência do homem na natureza é o mangue localizado em Costinha, distrito de Lucena, no Litoral Norte paraibano. Ele faz parte da bacia do Rio Paraíba, a segunda maior do Estado, que abrange 38% do território paraibano e que abriga 1.828.178 habitantes, perdendo apenas para a do Rio Piranhas. Para pesquisadores, essa bacia carrega uma biodiversidade considerada riquíssima, com muitas espécies da flora e fauna, tema da segunda reportagem da série “Paraíba, o rio". A ação faz parte do novo projeto da Fundação Solidariedade, braço social do Sistema CORREIO, que busca o desenvolvimento sustentável das comunidades instaladas às margens do estuário do Rio Paraíba.

De acordo com o geógrafo Romilson da Costa Santos, o mangue é uma faixa de transição entre água doce e água salgada. “É nesse trecho que se forma um ambiente salobro. Por conta disso tem peixe que se adequa aos dois tipos de água. Um exemplo disso é a tainha. Ela nasce no mangue e vai para o mar. Por que? Porque o mangue é o berço das espécies marinhas. Boa parte delas é reproduzida no mangue”, disse, exemplificando também com peixes como o bagre e o robalo, que são encontrados nos dois ambientes. Ele explicou ainda que existem quatro tipos de mangue: preto, vermelho, branco e de botão. Os três primeiros levam em consideração a coloração de suas raízes. Enquanto o último, o formato de suas flores. Porém tem uma importância ímpar, pois quando ocorre degradação como o desmatamento, o primeiro a ser retirado é esse tipo de mangue.

Dentre as características da flora presente nesse ecossistema estão as árvores com raízes externas, consideradas pneumáticas. “Elas ficam afloradas porque o mangue é um ecossistema que tem pouco oxigênio. Devido às matérias orgânicas, que são lançadas com a entrada das águas do Oceano, a natureza, que é perfeita, colocou as raízes expostas, justamente para que elas respirem o oxigênio que vem do ar”, comentou o geógrafo que também é nativo do distrito de Costinha. Ele nasceu e cresceu no ambiente onde observava familiares vivendo da pesca. Porém, ao longo dos anos, lamenta o desaparecimento das espécies marinhas naquele trecho.

Até 1980, Romilson da Costa Santos contou que o mangue era preservado, pois os interesses econômicos de parte da sociedade não era a ocupação no entorno dos mangues. “Aqui era abundante caranguejo, siri, peixes. Hoje está bem escasso. Se acha algum, é muito pouco”, contou. O geógrafo explicou que nos anos 90 várias usinas lançavam dejetos de corte de cana, por exemplo, no rio e consequentemente caia no mangue. “Uma quantidade enorme de peixes morria. Eles ficavam boiando na água. A comunidade, por desconhecimento, comemorava a morte dos peixes, pois para eles era fácil pegar”, relatou.

Após fortes pressões da sociedade e de Organizações Não Governamentais, as usinas destinaram outros fins para os seus dejetos. Mas por outra parte, outras ações realizadas pelo homem contribuíram com novos impactos ao meio ambiente.

No mangue, em Costinha, além de alguns resíduos domésticos, trazidos, principalmente, pelo encontro das águas doce e salgada, há também os resíduos deixados pela população. Exemplos disso, pneus colocados por pescadores nas margens para facilitar o embarque e desembarque das canoas. Diariamente, o geógrafo contou que a luta é para conscientizar a população sobre os danos e as formas de cuidar do mangue. Há uma cobrança também para que os poderes públicos tomem providências.

A TV Correio e a Fundação Solidariedade produziram uma série de matérias sobre o Rio Paraíba e seu estuário. O CORREIO e o Portal estão produzindo textos exclusivos sobre o tema.

ESPÉCIES ÚNICAS



Muitas espécies da flora e fauna são encontradas unicamente nessa bacia como revelou o professor da pós-graduação em Ecologia e Conservação da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), o doutor em Ecologia e Recursos Naturais José Etham de Lucena Barbosa. Pesquisadores das três universidades públicas da Paraíba contam com um vasto material de estudo que pode auxiliar na aplicação de projetos para a preservação de toda a bacia do Rio Paraíba. Em diversos pontos, é possível visualizar a interferência antrópica – ação do homem – que causou e ainda provoca a degradação do meio ambiente.

Algumas espécies da flora do Rio Paraíba, por exemplo, ainda são desconhecidas no campo científico e por conta disso passam pelo processo de catalogação, segundo comentou o professor da pós-graduação em Ecologia e Conservação da UEPB. “A bacia é uma grande sala de aula para pesquisadores e sociedade como um todo”, ressaltou. O estudioso destacou que a manutenção dos espaços, através de políticas públicas de todos os níveis de poder, garantem que essas espécies não desapareçam e ainda ajudem na manutenção do equilíbrio do ecossistema – que inclui seres vivos e meio ambiente.

De acordo com o pesquisador, na bacia do Rio Paraíba são encontrados ecossistemas costeiros (mangues, estuários, restingas), localizados na faixa litorânea, e o da Caatinga, recorrente nas regiões do Agreste e Sertão paraibano. “Podemos dizer que a Caatinga é a vestimenta do Semiárido e tem uma importância ímpar”, comentou.

O pesquisador destacou que é possível transformar a bacia em espaços ativos, ou seja, explorando, mas de forma sustentável. Pode-se aplicar como exemplos disso o turismo ecológico e de aventura.

Algumas espécies da flora presentes na bacia do Rio Paraíba são utilizadas para a fabricação de produtos fármacos cujo objetivo é o tratamento de doenças. “No interior tem muitas paisagens naturais e desafiadoras que podem ser exploradas. Temos uma biodiversidade riquíssima. O nosso Semiárido é extraordinário. A Caatinga e os nossos sistemas costeiros são um grande tesouro”, frisou.

O doutor em Ecologia e Recursos Naturais informou que a medida que a bacia foi sendo ocupada, principalmente pela agricultura e pecuária (ciclo do gado, do algodão, da cana), as matas originais foram dando espaço a essas atividades, muitas delas de forma desorganizada e predatória. “É preciso reordenar essas atividades, não extingui-las, dando o devido valor, dando a devida ocupação, para que possamos conviver harmonicamente com essas atividades”, frisou, acrescentando a necessidade de utilizar o espaço para fins corretos como evitar plantar algo que não seja indicado para a área. O professor José Etham informou que é preciso manter a paisagem natural, os aquíferos e os lençóis subterrâneos intactos.

“As nascentes do Rio Paraíba precisam ser preservadas porque através dela é que temos o marco legal de intervenção para se fazer um amplo zoneamento dessas atividades ao longo do tempo”, comentou.

De acordo com o professor doutor, o endemismo – fenômeno na qual espécies ocorrem em determinadas regiões geográficas do mundo – também ocorre no Rio Paraíba desde espécies microscópicas até a grande porte animais e vegetais. Os estudos estão sendo feitos nas universidades Estadual da Paraíba, Federal de Campina Grande e da Paraíba. “No programa de pós-graduação da UEPB, que é de Ecologia e Conservação, tem pesquisadores fazendo levantamento dessa biodiversidade, catalogando e descobrindo f espécies que são únicas e se não forem protegidas não saberemos os princípios ativos e resolução de problemas de saúde”, revelou.

"Há várias espécies sendo catalogadas, levantadas desde os sistemas costeiros até Alto Sertão. A bacia é uma grande sala de aula para pesquisadores, para a sociedade, para os gestores, os governos municipal, estadual e federal. Essas políticas precisam estar interligadas. Precisam ser pactuadas para que tragam definitivamente um contexto sustentável para a bacia do Rio Paraíba." - José Etham de Lucena Barbosa, professor de pós-graduação da UEPB e doutor em Ecologia e Recursos Naturais

PROBLEMAS QUE PRECISAM DE SOLUÇÃO



De acordo com o professor José Etham de Lucena Barbosa, existem três grandes problemas encontrados na bacia e que precisam ser equacionados rapidamente. “O primeiro é a introdução de espécies exóticas. Muito dessas paisagens únicas da bacia do Rio Paraíba sofre com a introdução de espécies que vieram de outras bacias, de outros países, de outras paisagens e isso tem provocado a extinção de espécies nativas”, comentou, exemplificando que o peixe tilápia, que é uma espécie introduzida, tem causado modificações no ambiente.

Além disso, as microalgas e zooplancton advindos da Transposição do Rio São Francisco são considerados modificadores da natureza. “A Transposição tem essa característica de ter dado segurança hídrica a região, mas as águas trazem os problemas do próprio Rio São Francisco que também não foram equacionados. A introdução de espécies podem ser um risco iminente”, alertou.

O segundo problema é a destruição de habitat devido a ocupação desordenada nas áreas urbanas e rurais.

Já o terceiro é a mudança climática. “Por mais que presidentes em outros países, até algumas entidades do Brasil falem o contrário, nós estamos em pleno processo de alteração climática, todo mundo está sentindo a mudança presente. Chove antes ou depois do que se esperava. Chove muito em um local, chove menos em outro. Mudança climática não é só calor e aumento da temperatura, mas pode incorrer em outros aspectos como muita chuva, trombada d’água e outras questões, pois o tempo está em uma instabilidade grande”, afirmou.

Para o professor José Etham, o homem tem parcela de responsabilidade sobre as mudanças climáticas. “A gente tem que começar, dentro das nossas políticas públicas, a incorporar o cuidado a médio e a longo prazo para evitar essas alterações. Saber o que vamos nos alimentar nos próximos 50 anos. Quais as espécies endêmicas que vão se perpetuar a longo prazo? O que vai desaparecer? Ter uma visão preditiva para mitigar esses problemas com ações a partir de hoje e com urgência”, finalizou.

"A destruição do habitat das paisagens é um dos grandes riscos que a nossa biodiversidade sofre." - José Etham de Lucena Barbosa

EDUCAÇÃO PARA PRESERVAÇÃO



O Instituto do Meio Ambiente e Ação Social (Imaas), coordenado pelo geógrafo Romilson da Costa Santos, trabalha com ações voltadas para a preservação do meio ambiente. São realizadas trilhas e palestras que auxiliam na educação da população. “É um trabalho de educar, orientar as pessoas. É uma vigilância constante do mangue. A gente fica fazendo esse trabalho de conscientização com as escolas e com a comunidade”, frisou. A Organização Não Governamental existe desde 2004, mas efetivamente em ação em 2012.

Quem visita Costinha podem conhecer o trabalho na sede da ONG que é uma casa semiecológica, pois algumas paredes são feitas com garrafas de vidro e outras de garrafas peti. Aquele material que iria parar no lixo é destinado para outros fins. Os pneus que seriam jogados em áreas inadequadas ou acumuladores de água para a reprodução do mosquito transmissor da dengue, por exemplo, é transformado em lixeiras e objetos para ornamentar jardins.

Além disso, os galhos de árvores também podem servir de objeto de decoração, semelhantes a animais. Há uma cama também feita em garrafa de plástico e instalada uma luminária que deixa um charme especial durante a noite.

O Imaas também tem a função de fazer a uma exposição permanente de como era a caça da baleia na década de 80 que era comum na região. Há vários objetos e imagens dessa época.

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SOBRE O RIO PARAÍBA



A bacia do Rio Paraíba nasce nas áreas mais secas do Estado, na Serra de Jabitacá, no município de Monteiro, na divisa com o estado de Pernambuco. Ele percorre o Centro-Sul paraibano, passa pela região de Campina Grande e no meio curso tem como principal afluente o Rio Paraibinha, que forma a represa de Acauã e o Rio Gurinhém. A partir daí começa a percorrer no baixo curso, desaguando no Rio Parueira e no Rio Sanhauá. Uma viagem de 380 quilômetros até se encontrar com o Oceano Atlântico quando se transforma em estuário, passando pro Santa Rita, Bayeux, João Pessoa, Cabedelo e Lucena.

"O rio sempre está associado ao nascimento de uma civilização. Então, se a gente pode chamar aqui a Paraíba de uma civilização, o povo paraibano, esse povo nasceu aonde? Qual o berço do povo paraibano? É o Rio Paraíba”, disse a professora e pesquisadora Lígia Tavares, que estuda o Rio Paraíba há mais de 30 anos. Para a geógrafa, que foi entrevistada pela TV Correio, conhecer o rio é conhecer a história da Paraíba. “Os portugueses não fundavam cidades no Litoral por questões de defesa. Então, ao longo da costa brasileira muitas cidades foram fundadas nos rios, nos estuários que ficavam por trás do Litoral. Desta forma, o estuário era fundamental. Havia que se encontrar um estuário relativamente profundo para que as naus pudessem entrar por ele e fundar essa povoação que, no caso nosso, aqui de João Pessoa, foi ali onde hoje se situa o Porto do Capim”, frisou.