Paraíba
Seridó paraibano: onde os ventos fazem brotar energia

Publicado em 30/12/2018 10:31 - Atualizado em 30/12/2018 10:31

Reprodução

Os bons ventos que sopram lá pelos lados do Seridó paraibano não param de produzir riquezas e sustentabilidade. Pouco mais de um ano depois de ter conhecido os ‘vendedores de vento’ da região, a equipe do CORREIO voltou até o Complexo Eólico de Santa Luzia, que vem alterando não só a paisagem como também a vida dos sertanejos que por lá vivem.

O empreendimento mais que dobrou a expectativa de geração de empregos passando de 570 neste ano, para 1,2 mil no ano que vem. Isso devido às instalações dos aerogeradores – nome dado àqueles ‘ventiladores gigantes’. Com a expansão do Complexo, que deve ganhar 15 novos parques eólicos a partir de 2020, os especialistas afirmam que a Região Metropolitana de Patos tem potencial para desenvolver um forte polo industrial.

 
 
 
 

A área é formada por 24 municípios. O Complexo Eólico está presente em três deles: Santa Luzia, São José do Sabugi e Junco do Seridó e com a expansão outros dois serão contemplados: São Mamede e Areais de Baraúnas. “A Paraíba tem segurança energética”, garantiu o secretário executivo de Energia da Paraíba, Robson Barbosa, doutorando em energia pela Universidade de São Paulo (USP).

Quanto mais um estado sinaliza disponibilidade energética de transmissão, mas ele tem condições de atrair indústrias. Porque um dos principais estudos que as empresas fazem antes de se instalarem numa região é se ela tem disponibilidade de energia”, acrescentou.

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De acordo com o Atlas de Energia Eólica da Paraíba, produzido pelo Ministério de Minas e Energia, em parceria com a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e o Governo do Estado, apenas o Seridó Ocidental, uma das sete regiões paraibanas com boas condições de ventos, tem capacidade de instalação de 1.450 MW (megawatts).

 
 
 
 

O Seridó Ocidental se estende pelas cidades de São José do Sabugi, Santa Luzia, Junco do Seridó, São Mamede, Areia de Baraúnas, Passagem e Quixabá. Atualmente o Complexo Eólico de Santa Luzia produz 94,5 MW, ou seja, apenas 6,5% da capacidade total da região.

 
 
 

O interior da Paraíba está ganhando condições de se desenvolver economicamente com recursos abundantes e renováveis: o sol e o vento. O Complexo Eólico de Santa Luzia gera e transmite energia. Indústrias instaladas em regiões próximas a torres de transmissão pagam taxas de energia menores do que aquelas que ficam em zonas mais afastadas”. Jussiê Dantas, gerente de planta da Neoenergia – filial da Iberdrola, empresa espanhola especializada em energia eólica.

 

 
 
 
 
 
 
 

Flávio Meneses, vigilante (Foto: Ellyka Gomes)

 
 
 
 
 

Ventos com potencial econômico

 

O projeto de expansão do Complexo Eólico de Santa Luzia terá papel fundamental na geração de empregos. A estimativa da Neoenergia é que mais de 1.200 pessoas sejam contratadas para a implantação das novas instalações. O vigilante Flávio Meneses, de 35 anos, natural de Santa Luzia, está de olho em uma dessas vagas.

Ele trabalhou como eletricista durante a construção dos parques em operação e foi admitido pela empresa para o cargo atual. “Antes dessas oportunidades não era fácil”, contou. Flávio, como tantos outros santaluzienses, viva de fazer “bicos”. “Eu apurava uns R$ 600 a R$ 700 por mês”, revelou. Quando foi contratado como eletricista passou a ganhar R$ 1.400 mensalmente. O salário é o mesmo para o atual cargo de vigilante.

A renda fixa permitiu que ele voltasse a contribuir regulamente com a pensão dos dois filhos, comprasse um terreno e uma moto. Visando o início das obras de ampliação do Complexo, a partir do ano que vem, Flávio vai começar o curso de eletrotécnica. “O pessoal da subestação me deu um toque, e eu decidi me capacitar. Porque quando a expansão começar em 2020, quem sabe se eu não sou chamado para um cargo melhor?!”, ponderou.

 
 
 
 
 
 

Rotina transformada

 

O prefeito de Santa Luzia, José Alexandre – mais conhecido como Zezé – revelou que o Complexo Eólico mexeu com a rotina da cidade. “Além da geração de emprego, hoje é frequente a passagem de profissionais como engenheiros, jornalistas, fotógrafos que visitam os parques eólicos. Então, eles consomem no município, movimentam nosso comércio… E não mais importante, levam o nome da nossa cidade para o mundo”, comentou.

Segundo Zezé, o Imposto Sobre Serviços (ISS) arrecadado pela Prefeitura de Santa Luzia durante as obras de construção dos três parques e, posteriormente, a taxa de alvará por torre com a finalização do empreendimento foram fundamentais para manter o pagamento dos funcionários e fornecedores municipais em dia.

 
 
 
 
 

Santa Luzia e seus bons ventos

 

Veja números dos mais novos parques eólicos da Paraíba

 
 
 
 
 

Cenário atual

  • 3 parques eólicos: Canoas, Lagoa e Lagoa I
  • 45 aerogeradores modelo SG132
  • cidades com aerogeradores: Santa Luzia, São José do Sabugi e Junco do Seridó
  • 471 MW de capacidade – o suficiente para abastecer duas cidades de Patos
  • 600 milhões de investimento: com apoio do BNDES
 

Ampliação

  • Serão 15 novos Parques Eólicos
  •  Obras: início de janeiro de 2020 e conclusão prevista para 2023
  • Número de aerogeradores: 144 modelo G114
  • Cidades com aerogeradores: Santa Luzia, São José do Sabugí, São Mamede e Areia de Baraúnas
  • Capacidade instalada: 471 MW – o suficiente para abastecer 996 mil habitantes
  • Investimento aproximado: 2 bilhões de reais
 
 
 
 
 
 
 

Uma cidade estratégica

 

O gerente de planta da Neoenergia, Jussiê Dantas, explicou que a cidade Santa Luzia foi escolhida para a operação do Complexo Eólico por uma série de fatores. Primeiro porque os ventos na região são constantes e circulam numa velocidade estável – principais condições para uma boa produção de energia eólica. “As pessoas acham que uma área com forte incidência de ventilação é a ideal para produção de energia, mas não é”, afirmou.

Os aerogeradores são programados para suspender a geração de energia em condições com muito vento, porque o equipamento danificar com a rápida velocidade de circulação das pás (termo técnico para a hélice do aerogerador) ou, até mesmo, causar um acidente, caso alguma peça se desprenda. Outro fator que contribuiu para a instalação do Complexo Eólico em Santa Luzia foi porque a cidade está estrategicamente bem localizada.

O município tem a BR-230 como principal rodovia de acesso e fica próxima as três importantes cidades paraibanas: Patos (44 km), Campina Grande (137 km) e João Pessoa (271 km). As duas últimas contam com aeroportos, e a Capital com o Porto de Cabedelo.

Não adianta você ter uma cidade com grande potencial eólico e ela estar localizada numa região de difícil acesso. Porque o gasto com infraestrutura será muito maior e poderá tornar o empreendimento inviável”, explicou Dantas.

 
 
 
 
 

Vias de acesso

 

Para a instalação do Complexo Eólico de Santa Luzia, a Neoenergia reparou de 50 km de vias de acesso, pois os aerogeradores foram instalados em terras semináridas. O Complexo Eólico entrou em operação em setembro de 2017. Atualmente a capacidade instalada é de 94,5 MW – o suficiente para abastecer 200 mil habitantes. Algo aproximadamente como duas cidades de Patos. No empreendimento funciona três parques (Canoas, Lagoa e Lagoa 1), com 45 aerogeradores.

Os equipamentos foram instalados em três cidades diferentes, em um perímetro de 27 km. A partir de 2020 começarão as obras de expansão do Complexo – um investimento de aproximadamente de R$ 2 bilhões. A empresa vai instalar 183 aerogeradores modelo SG132, com 3,1 MW de potência unitária. Serão 15 novos parques nos municípios de Santa Luzia, São José do Sabugi, São Mamede e Areais de Baraúnas.

Com a ampliação, prevista para ficar pronta até 2023, a produção de energia eólica no vai ser acrescida em 471 MW de capacidade instalada, totalizando 565,5 MW. Com esse número, o Complexo Eólico de Santa Luzia – operado pela Iberdrola – será a maior planta renovável do grupo espanhol na América Latina.