Religiosidade
O que faz do papa Francisco o maior canonizador da história da Igreja Católica

Publicado em 02/07/2019 09:42

Reprodução

Em seis anos de pontificado, papa Francisco já canonizou 892 santos. E a esta cifra podem ser somados outros cinco anunciados, entre os quais a brasileira irmã Dulce Pontes (1914-1992), cuja cerimônia de canonização, confirmada nesta segunda-feira (1º), será dia 13 de outubro.

O número é um recorde. Antes de Francisco, o maior canonizador da Igreja havia sido João Paulo 2° (1920-2005), que em 26 anos de pontificado fez 482 santos. O terceiro do ranking é Leão 13 (1810-1903), com 148 santos em 25 anos.

O levantamento foi feito pela reportagem da BBC News Brasil a partir do cruzamento de informações disponibilizadas pela Congregação das Causas dos Santos, órgão do Vaticano responsável pelos processos de reconhecimento, com dados de pesquisa do teólogo e filósofo Fernando Altemeyer Júnior, chefe do Departamento de Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

“O pontificado de Francisco é um grande florescer do trabalho semeado por João Paulo 2° e arado por Bento 16”, comenta padre Roberto Lopes, delegado Arquiepiscopal da Causa dos Santos do Rio de Janeiro. “Francisco é uma primavera para futuros santos e santas, mostrando ao mundo o rosto da santidade fecunda do cristianismo.”

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De acordo com Altemeyer Júnior, a tendência dos pontificados recentes é “colocar a santidade como atitude vital normal de pessoas normais”, sem “excepcionalidades”.

“Daí a vontade de multiplicar os exemplos e trazê-los para os tempos atuais. Como irmã Dulce, pois eu mesmo e milhares de brasileiros conviveram com ela, tocaram nela, falaram com ela, são contemporâneos a ela. É como se eu dissesse: ‘puxa, eu conheci e vivi com um santo e ele era normal e ao mesmo tempo uma pessoa iluminada; eu também posso ser santo’.”

Canonizações coletivas

O número extraordinário de santos canonizados por Francisco tem explicação nas canonizações coletivas, em que o atual papa de uma só vez reconhece a santidade de um grupo de mártires.

O recorde absoluto foi a canonização, em maio de 2013, dos mártires de Otranto: os 813 habitantes da cidade do sul da Itália liderados pelo alfaiate Antonio Primaldo, dizimados por tropas otomanas em 14 de agosto de 1480.

Antes disso, a maior canonização coletiva da história havia sido feita por João Paulo 2° que, outubro de 2000, reconheceu a santidade, de uma só vez, de 120 mártires chineses.

João Paulo 2° costumava fazer canonizações coletivas. Em maio de 1984, por exemplo, reconheceu a santidade, de uma só vez, de 103 mártires coreanos. Nos anos seguintes, ele declararia santos mártires do Japão (16), do Vietnã (117) e do México (25).

Francisco também realizou outras canonizações coletivas. Em outubro de 2017 canonizou, de uma só vez, os 30 protomártires brasileiros, também chamados de mártires de Cunhaú e Uruaçu.

Para o religioso Marcelo Toyansk Guimarães, frade da Província dos Capuchinhos de São Paulo, embora “a fama de muitas canonizações” fosse de João Paulo 2º, o jeito com que Francisco conduz a Igreja traz uma abertura que propicia o reconhecimento de mais santos.

“O atual pontificado é sinodal, colegiado, descentralizado no sentido positivo do termo”, afirma ele. “Isso facilita o reconhecimento de testemunhos e santos nas mais várias e diversas realidades.”