Saúde
Projeto capacita médicos para expandir aplicação de DIU

Publicado em 06/11/2019 09:39

Reprodução

Um projeto de extensão da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) está capacitando médicos e enfermeiras da atenção básica a fim de estender a aplicação dos dispositivos intrauterinos (DIU), em Campina Grande, desde maio de 2019. O projeto é coordenado pela professora doutora e ginecologista Melania Amorim, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde.

Conforme Melania, através desta capacitação estão sendo formadas turmas em aulas teórico-práticas envolvendo simulação e treinamento em campo com carga horária de 20h. Algumas Unidades Básicas de Saúde já tiveram suas equipes capacitadas e o projeto segue. A ideia é que, uma vez que haja a inserção de DIU em postos de saúde, além de facilitar o acesso para mais mulheres, também contribua para aumentar o número de usuárias.

Dispositivos são distribuídos de acordo com a demanda dos municípios (Foto: Chico Martins/ Jornal Correio)

Em Campina Grande, a Secretaria de Saúde informou que ainda não há uma data prevista para a inserção de DIU nas unidades básicas, mas a expectativa é aumentar os números de mulheres que usem o método até 2022, de acordo com as diretrizes do Ministério da Saúde. Melania destacou que dados apontam, no Brasil, que apenas 2% das mulheres usam esse tipo contraceptivo.

Uma vez que quanto maior a proporção de mulheres usando DIU menores as taxas de gravidez indesejada, abortos provocados, gestações de alto risco e mortalidade materna, o Portal Correio procurou saber como a cidade de Campina Grande está atendendo a demanda e pretende estendê-la, como também tirar dúvidas de mulheres que pretendem ter acesso ao contraceptivo, mas ainda se sentem inseguras.

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O método

Melania explicou que existem dois tipos de DIU, o de cobre e o de progesterona, que é o hormônio feminino. O primeiro tem efeito tóxico para espermatozoides e óvulos, enquanto o segundo deixa o muco cervical espesso e impede a ascensão dos espermatozoides para dentro da cavidade uterina.

Melania enfatizou que os dois tipos são LARC, sigla em inglês para métodos contraceptivos de alta efetividade reversíveis e de longa duração. O DIU de cobre, segundo ela, pode durar até dez anos, e o de progesterona, cinco anos.

Dispositivo tem comprimento de 28mm e envergadura de 17mm (Foto: Chico Martins/ Jornal Correio)

Atualmente, em Campina Grande, o DIU de cobre é colocado na maternidade Instituto de Saúde Elpídio de Almeida (Isea) e no Hospital Universitário Alcides Carneiro (HUAC); o segundo oferece os dois tipos de DIU, junto ao projeto organizado com a Secretaria de Saúde.

“Esses dois tipos de DIU impedem o encontro do óvulo com o espermatozoide e são muito efetivos. A taxa de falha do DIU de cobre, que é oferecido em todo o Brasil pelo SUS, é de seis a oito gestações para cada mil usuárias. Já a taxa de falha do DIU de progesterona, que é oferecido em alguns serviços e também disponível comercialmente, é de duas gestações para cada mil usuárias por ano”, contou a professora.

Inserções gratuitas

A mulher interessada em ser usuária pode solicitar à unidade de saúde que frequenta que a encaminhe para o Isea ou para o Hospital Universitário, a fim de realizar uma inserção. Ainda há a opção de se comparecer e se inscrever em um dos mutirões que são oferecidos periodicamente para inserção de DIU em grande quantidade de mulheres no HUAC.

Processo para aplicação

Segundo Melania, para realizar a aplicação, as mulheres precisam passar por exames. “Se trata de uma avaliação no serviço de saúde, com anamnese (história clínica) e exame pélvico para avaliar se existe alguma contraindicação, mas são muito poucas. Mulheres que nunca engravidaram e adolescentes também podem usar DIU. Para colocar tem que ter certeza que não está grávida, mas não precisa estar menstruada”, enfatizou.

Conforme o diretor do Isea, Mario Filho, a inserção no Instituto segue o padrão nacional pautado na lei n 8.080 de 19 de setembro de 1990, que dispõe da organização e funcionamento do serviço considerando o que trata a Lei do Planejamento Familiar. Conforme o Ministério da Saúde, a atuação dos profissionais na assistência à anticoncepção envolve, necessariamente, três tipos de atividades de acompanhamento à mulher, sendo elas a educativa, de aconselhamento e clínicas.

O Ministério da Saúde enfatiza que as atividades educativas devem ser desenvolvidas com o objetivo de oferecer os conhecimentos necessários para que a mulher tenha certeza da escolha de utilização do método, uma vez que outros podem ser mais adequados para ela. Esse processo visa propiciar questionamento e reflexão sobre os temas relacionados à prática da anticoncepção. As ações educativas são realizadas em grupo, após a primeira consulta e são reforçadas pela ação educativa individual.

Passo a passo da inserção é explicado às mulheres que desejam inserir o dispositivo, no Isea (Foto: Chico Martins/ Jornal Correio)

O aconselhamento, por sua vez, é entendido como um processo de escuta ativa individualizada e centrada na mulher, para estabelecer uma relação de confiança entre profissionais e clientes. Já as atividades clínicas são realizadas de forma que a mulher tenha serviços de saúde em benefício da promoção, proteção e recuperação da saúde.

Dessa forma, inclui-se nas consultas clínicas a anamnese; exame físico geral e ginecológico, com atenção para o autoexame de mamas e levantamento de data da última colpocitologia oncótica, para avaliar a necessidade de encaminhamento; análise da escolha e prescrição do método anticoncepcional mais adequado para a possível usuária.

Uma vez que as mulheres iniciam as atividades de acompanhamento, elas têm um período 60 dias até tomar a decisão de inserir o dispositivo. A Unidade de Planejamento Familiar do Isea informou que a partir do momento que o DIU é aplicado, a mulher deve se submeter a ultrassons a cada seis meses, para identificar se o objeto está bem posicionado. A mulher também pode retirar o dispositivo no momento que não quiser mais usá-lo.

Após processo de orientação, mulher pode escolher se quer ou não realizar a inserção (Foto: Chico Martins/ Jornal Correio)

Números de inserções

As aplicações de DIU de cobre no Isea começaram no ano de 2017, através da Unidade de Planejamento Familiar do Instituto, segundo Mario Filho. De 2017 até este ano, já foram aplicados 373 DIUs de cobre na maternidade, sendo 178 deles de janeiro até agosto de 2019.

Já conforme Melania, no HUAC as aplicações também tiveram início em 2017, e cerca 350 DIUs de cobre e progesterona já foram aplicados. “A tendência é aumentar. O nosso diferencial é que tanto dispomos do DIU de cobre como de progesterona porque participamos de um projeto junto com a Universidade Estadual de Campinas para disponibilizar DIU de progesterona no SUS,” explicou.

Outros métodos gratuitos

Para as mulheres que não pretendem inserir, ou ainda estão à espera da inserção, em Campina Grande, a Secretaria de Saúde orienta que elas procurem adquirir outros métodos contraceptivos que são disponibilizados gratuitamente na cidade e que também são eficientes.

A secretaria indica que as mulheres interessadas podem procurar unidades básicas para ter acesso a preservativos femininos e masculinos. Para fazer laqueadura ou vasectomia, as mulheres também podem se encaminhar para as UBS e para o Isea, de forma a realizar o cadastro conforme Lei do Planejamento Familiar. Por fim, os comprimidos orais e injetáveis também são disponibilizados pela central de abastecimento básico.

*Mayara Oliveira, especial para o Portal Correio